Especialistas exigem ciclovias das pedageiras

E também passagens à animais silvestres no novo modelo

Construção de mais ciclovias com infraestrutura de sinalização e segurança para ciclistas e animais silvestres. Essa foi a demanda apresentada por especialistas em mobilidade urbana e ciclomobilidade durante audiência pública promovida pela Frente Parlamentar sobre o Pedágio da Assembleia Legislativa do Paraná, realizada remotamente  e transmitida pela TV Assembleia e pelas redes sociais do Poder Legislativo.

Essa foi a primeira reunião realizada pela Frente que abordou temáticas específicas. Estrutura cicloviárias e passagens de fauna nas rodovias pedagiadas foram debatidas por deputados, especialistas em infraestrutura em modais de transportes, engenheiros, cicloativistas e técnicos em gestão ambiental em estradas.

“Todas as audiências até agora foram sobre as regiões e suas demandas, mas hoje fizemos um debate sobre um tema relacionado ao pedágio, mas com uma discussão mais específica sobre a questão da ciclomobilidade. Em várias audiências no interior, foi falado sobre a implementação de ciclovias nas rodovias pedagiadas. Mas nessa audiência conseguimos colher sugestões importantes para apresentar esses contrapontos ao novo modelo de concessão”, afirmou o deputado Arison Chiorato (PT), coordenador da Frente.

A audiência começou com uma apresentação feita pelo deputado Evandro Araújo (PSC) na qual ele demonstrou um panorama do modelo atual de pedágio. O parlamentar reforçou que o modelo apresentado se trata de um risco, já que o desconto está limitado em um valor de 17%, o que pode representar no futuro uma tarifa com o valor que pode chegar a 80% dos preços praticados atualmente. A apresentação mostrou ainda que o modelo inclui o chamado degrau tarifário, que representa o aumento da tarifa compulsoriamente em até 40% após a realização das obras e duplicações.

“Essa foi uma semana preocupante porque o Ministro da Infraestrutura, depois de fazer um leilão de uma rodovia entre Tocantins e Goiás, voltou a falar do modelo híbrido e a taxa de outorga. Temos no estado duas concessionárias que confessaram crimes, não realizaram obras e fizeram acordos de leniência. E foram essas concessionárias que participaram desse leilão no Tocantins e em Goiás. Então precisamos continuar na luta para termos no Paraná um modelo mais barato e com obras de infraestrutura”, comentou o deputado Luiz Carlos Romanelli (PSB), primeiro secretário da Assembleia.

Ciclomobilidade A apresentação continuou com o deputado Evandro Araújo explicando que o novo modelo de concessão proposta pelo Governo Federal prevê apenas 73 quilômetros de ciclovias, sendo essa a extensão nos dois sentidos das rodovias. Ou seja, a extensão real das ciclovias será apenas a metade do apresentado. Ainda de acordo com o novo contrato, essas ciclovias serão apenas construídas em sete cidades, sendo que dois, dos seis lotes de licitação, não contarão com novas estrutura cicloviárias.

“Numa discussão tão grande de oferecer alternativas limpas e baratas, que é o caso da bicicleta, com cases de sucesso em todo o mundo, nos deparamos com essa proposta tão pequena e pobre do Governo Federal. Por isso esse debate é tão importante”, afirmou Araújo.

O deputado Goura (PDT) apresentou números de atropelamentos em rodovias paranaenses no ano passado. Segundo números apresentados, em 2020 o estado registrou 1.337 mortes em decorrência de acidentes de trânsito, sendo 17,57% pedestres e 4,41% de ciclistas. “Fizemos uma representação junto à ANTT apresentando demandas para a ciclomobilidade. Queremos que as concessionárias apresentem dados em tempo real sobre acidentes, dados sobre circulação de ciclistas e iluminação pública, principalmente nas entradas e entroncamentos. Queremos também pontos de apoio aos ciclistas. Solicitamos corredores ecológicos, para salvar os animais silvestres nas travessias de rodovias, e ainda levantamento de dados sobre a fauna de cada região onde tiver uma praça de pedágio”, explicou o parlamentar.

Para o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), Ricardo Rocha, o debate sobre as questões do pedágio abrangeu outras temáticas além de preços e custos de tarifas. “A discussão do pedágio no Paraná gerou uma discussão mais ampla, que levantou questões de infraestrutura e modais de transporte pública. Poderíamos ter uma lei que exigisse em todo contrato de concessão de estradas a implementação de modal de ciclovia. Esse é um debate que vai mexer com as nossas cidades e a nossa população e precisamos levar esse tema da ciclomobilidade para frente”, sugeriu.

O representante da Ciclo Iguaçu, Éder Willian Greaff, apontou que as empresas de pedágio têm muitas condições financeiras de implementar modais de ciclomobilidade em todas as rodovias por elas administradas. “Temos um estudo que se direcionar 1% do total arrecadado com tarifas, é possível construir mil quilômetros de rodovias com toda a infraestrutura necessária para segurança dos ciclistas. Portanto, é barato. Até porque todo acidente tem um custo e esse custo é repassado para o Estado. Então, infraestrutura pra bicicletas é mais barato que acidentes, porque dá mais segurança para ciclistas e os outros usuários das rodovias”, ressaltou.

“Ano passado eu pedalei 1.500 quilômetros pelo Paraná e afirmo que a questão de sinalização e estrutura para ciclistas é muito importante. É preciso construção de ciclovias, mas é preciso também fazer um trabalho de conscientização dos motoristas. O ciclismo é um caminho sem volta, cada vez mais cidadãos estão adotando a bicicleta como meio de transporte e precisamos cuidar dessas pessoas”, completou o deputado Subtenente Everton (PSL).

“Precisamos dar mais segurança para todas essas pessoas que andam de bicicleta pelas rodovias do nosso estado. É um meio de transporte que muitos adotaram e temos que olhar para os ciclistas”, destacou a deputada Cristina Silvestri (CDN).

O deputado Tercílio Turini (CDN) entende que “a construção de ciclovias precisa estar entre as obrigações das futuras concessionárias de rodovias do Paraná para melhorar as condições de segurança na circulação de ciclistas, garantir mobilidade sustentável, estimular a redução de veículos motorizados e praticar uma visão moderna de gestão pública, com respeito ao cidadão”.

“Se nós olharmos os países desenvolvidos, a ciclovia permite que as pessoas que adotam essa modalidade de transporte se locomovam por centenas de quilômetros de distância. Esse tipo de transporte significa segurança, proteção e desenvolvimento econômico e social”, afirmou o senador Flavio Arns (Podemos).

De acordo com a cicloativista e vereadora pela cidade São Paulo, Renata Falzoni, o Brasil precisa seguir o exemplo europeu de implementação de estruturas de mobilidade e turismo por meio da bicicleta. “A Europa investiu para que as famílias que moravam no campo continuassem no interior. E isso alavancou o cicloturismo. Para termos uma ideia, o continente faturou 44 bilhões de euros com cicloturismo, entre ganhos diretos e indiretos. Precisamos de desenhos de estradas que salvam as vidas”, alertou.

Fauna – Segundo estimativas do Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas da Universidade Federal de Lavras apresentadas aos participantes da audiência, 475 milhões de animais são atropelados a cada ano nas rodovias brasileiras. “O Brasil tem muitos animais e muitas rodovias. Assim, temos os atropelamentos e o efeito barreira, que faz com que os animais não atravessem a rodovia e isso, do ponto de vista biológico, é prejudicial. Então para acabar com essas situações, é preciso ter um bom diagnóstico, entender e identificar o local da estrada e construir passagens de fauna, que são implementadas com cercas de direcionamentos e de diversos modelos de passagens”, destacou Fernanda Abra, especialista em passagem de fauna em rodovias.

“Os atropelamentos têm causado uma aceleração da perda de populações de animais silvestres. Então é preciso promover um desenvolvimento de transportes no Brasil, de maneira sustentável para evitar essas mortes”, disse Clarissa Alves da Rosa, especialista em ecologia de estradas. “Precisamos de uma atenção maior por parte das estâncias públicas voltadas para a proteção do patrimônio natural e de uma agenda positiva para mitigar a perda desses animais silvestres”, concluiu Clóvis Borges, da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

 

 

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